Pular para o conteúdo principal

Review: A Bela e a Fera


Apesar de ter visto a Disney acertar a formula de seus remakes live-action de suas próprias animações clássicas após erros como Alice e Malevola nos competentes Cinderella e Mogli, era impossível não sentir um frio na barriga ao entrar na sessão de A Bela e a Fera. Aqui estávamos falando do conto antigo como o tempo, aqui era a reimaginação da animação que marcou minha geração quase inteira, e claramente eles sabiam do peso da responsabilidade, pois a nova versão é mágica!
O estúdio sustentou a decisão acertada dos dois filmes anteriores de se manter fiel a animação responsável por esse remake, apenas expandindo o conto. Assim você revisita a historia em sua versão “carne e osso”, mas descobre novos fatos que contribuem a ela, aos personagens e a narrativa no geral. Em A Bela e a Fera, porém esse serviço ganha novos níveis, pois além de expandir o conto, eles o deixam mais sofisticado, adaptando a historia ao nosso momento social e também deixam o desenvolvimento mais crível. Se antes a protagonista apenas gostava de ler e se sentia deslocada na aldeia, aqui ela tem propósito, se opõem aos machismos locais, tenta repassar seu conhecimento a meninas limitadas ao serviço caseiro e é claro, sofre a retaliação das pequenas mentes locais por isso. São momentos chave como esse que trazem outras camadas aos personagens e fazem criticas sociais relevantes!
Essas novas camadas são reforçadas também pelas performances. Emma Watson incorpora o carisma esperto da Bela original, porém a faz mais forte, mais certa do que quer e especialmente do que não quer, fazendo todas as afirmações que faltavam no original. Contribuindo para a construção dela também está o Maurice de Kevin Kline, que aqui não é estereotipado como no original, pelo contrário, é o espelho que mostra como a moça se tornou tão doce, tão inteligente e tão positiva. Já Luke Evans entende como precisava manter o estereótipo de Gaston, ma adiciona novos nuances de maldade que o fazem um verdadeiro vilão. Completando os protagonistas, a Fera de Dan Stevens se torna muito mais interessante quando retratado como alguém inteligente, alguém com algo em comum com a protagonista e que justifique ela se apaixonar. Ele é eficaz também em fazer uma transação convincente entre o gênio terrível que o condenou e as boas vertentes que o salvam.
O elenco de apoio não fica devendo em nada em relação aos protagonistas. Lefou perde em muito o estereótipo de bobo, cai um pouco no estereótipo gay, porém seu questionamento as ações de Gaston e a virada final, somada a interpretação um pouco mais clara de sua sexualidade contribuem de novo com o discurso do filme. Os criados do castelo ganham o carisma necessário nas mãos de Ewan McGregor (Luimiere), Ian McKellen (Horloge) e Emma Thompson (Mrs.Potts), com personalidades muito inspiradas na animação, mas com pequenos toques pessoais que os deixam bastante interessantes.
Visualmente o filme é incrível. Acho possível afirmar que dessa vez a Disney não fez um longa, fez um conto de fadas. Os cenários em maioria práticos são imersivos, carregados em detalhes quais certamente a cada revisita você descobre algo novo e ainda assim com aquela artificialidade necessária para soar lírico. O design de personagens também encanta, especialmente por essa aura fabulosa, logo, quando a Fera não é exatamente realista, ela cabe no contexto. As soluções para os objetivos são inspiradas, com talvez apenas Mrs. Potts e Tips saindo prejudicados, mas em muito por falta de opção.
Por ultimo, mas não menos importante, a produção toma a sabia decisão de abraçar a faceta de musical da animação, resgatando os músicos originais para preencher o tempo maior de duração com canções novas que mantenham o ritmo de musical clássicos do longa. É difícil dizer se as musicas novas são tão boas quanto as anteriores até pela importância nostálgica, mas sem duvidas elas cabem no contexto e alcançam a qualidade do filme.
Conseguindo a proeza de reproduzir toda a mágica do clássico de 1991 e prestando um serviço aquele universo, essa nova versão de A Bela e a Fera é tudo que se espera de um conto de fadas em live-action. É possível acreditar na magia, no romance e se encantar mais uma vez e de forma diferente pela canção antiga como o ritmo. Lindo!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Review: Os Vingadores - Guerra Infinita

Dez anos se passaram desde que a Marvel Entertainment se recuperou da terrível crise financeira que enfrentou nos anos 1990, e através dos lucros alcançados com a venda dos direitos de seus principais títulos para estúdios de cinema decidiu caminhar com as próprias pernas por esse mercado, lançando o Marvel Studios. Dezenove filmes e uma absorção pelo gigantesco conglomerado Disney depois, o estúdio estreante mudou as regras do jogo, trouxe um conceito mais próximo do desenvolvimento de quadrinhos para o cinema e tomou a liderança do gênero, o que culmina no evento que é Guerra Infinita. E que evento!
Sim, porque acreditávamos ter presenciado um filme evento com o primeiro Os Vingadores, até mesmo com o segundo, mas se tínhamos, o conceito acabou de subir de nível com esse terceiro “assemble”. O que assisti ontem não foi um filme, foi uma experiência cinematográfica, foi algo inédito em escala, em conceito, em proporções! A promessa de um gigantesco crossover de quadrinhos reproduzid…

Review: Pantera Negra

Antes de começar nossa conversa, gostaria de ressaltar que aqui discutirei apenas o filme enquanto produção. Existe uma forte e IMPORTANTÍSSIMA discussão cultural e social que é parte indispensável do longa, porém eu não faço parte dessa demografia, posso fazer uma ideia, mas não conheço essa importância, essa vivencia, então posteriormente pretendo convidar algum representante da comunidade negra para escrever sobre essa parte aqui.
Por hora, vamos discutir o filme, e que filme! Apesar de grande fã do Marvel Studios e defensor do reconhecimento de sua liderança no gênero de super-heróis, já venho a algum tempo criticando a falta de seriedade e o quê formulatico de seu universo, constantemente contendo suas produções em tom e não os permitindo “engrossar” a conversa. Pois finalmente o estúdio se permite ultrapassar esse limite com Pantera Negra.
Esse é sem duvidas um filme de super-heróis, porém ele é mais que isso. Aqui se fala sobre tradição, cultura, crença e especialmente se que…

Review: Mãe!

Se tratando de um filme tão diferente quanto Mãe!, não é estranho que esse vá ser um review diferente. Neste review em especial eu vou falar o que achei do filme e o que entendi dele, por essa razão já darei um aviso: se você não assistiu ao filme ainda, pare por aqui e volte apenas quando tiver assistido. Digo isso porque o filme é pura metáfora e simbologia, deixando passível a diversas interpretações e a melhor maneira de descobrir a sua é ir ao cinema sem influências.
Ainda aqui? Ok, vamos lá. Eu estranhei muito quando, ao fim da sessão, ouvi alguém dizer algumas filas acima de mim: “- Não entendi nada”. Vivemos em uma sociedade de grande maioria religiosa ou de pelo menos criação religiosa e onde a Bíblia Sagrada é o livro mais vendido do mundo, sendo assim, como é possível que as pessoas tenham dificuldade em entender uma analogia a ela quando veem? Pois pra mim essa foi a interpretação primaria de Mãe!, uma grande releitura da Bíblia, desde Gênesis até o Apocalipse, em uma ve…