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Review: Logan


Pergunte a qualquer pessoa na minha faixa de idade e ela dirá que não parece terem se passado 17 anos desde o lançamento de “X-men: O Filme”. Um filme que, além abrir as portas para a retomada do até ali extinto gênero de super heróis, trouxe rostos até então do cinema independente e de arte para o publico mainstream e também apresentou rostos novos que graças a ele se tornaram grandes. Dentre os estreantes estava Hugh Jackman, um australiano do teatro e dos musicais que, quem diria, viria a se tornar o único Wolverine.
Em quase duas décadas o cinema e o gênero mudaram, a franquia se renovou, se reescalou, mas Jackman continuou consolidado como o carcaju canadense no qual simplesmente se transformou, algo inacreditável para os que reclamaram até de sua estatura quando foi anunciado. E essa performance tão longa e tão convincente não poderia receber despedida mais digna do que “Logan”, filme no qual retoma parceria com o diretor James Mangold de “The Wolverine” para seu ultimo ato com o personagem.
A primeira grande característica de Logan é justamente essa, ser sobre o personagem, o que faz seu titulo mais que assertivo. Não que o filme não tenha seus contornos de blockbuster, as sequencias de ação não são megalomaníacas, porém são absurdamente frenéticas e decentes, dignas de super produções, porém é na família que o coração do filme mora, como deve ser. Que doloroso é ver Charles e Logan chegando ao ponto máximo do desgaste, ver os dois poderoso e invencíveis mutantes que conhecemos vencidos pelo tempo, por terem vivido muito, vivido demais. Que delicado é ver Logan cuidando do antigo mentor agora debilitado pela doença e pela idade pois é o que precisa fazer. Ainda mais delicado quando se descobre que, perante um surto de ofensa do idoso Charles, Logan se cala, mesmo perante a oportunidade da mais cruel das verdades, qual por amor ao “pai”, o ajuda a esquecer.  Nessa primeira relação a força se encontra na performance digna de Oscar de Patrick Stewart, entregando um Xavier jamais visto, um Xavier quebrado.
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E se a dramática relação dos dois já encheria um filme inteiro, eis que surge Laura. A relação pai e filha de Wolverine com a X23 tem tantas camadas que te atinge por lados que você nem espera. Eis ali para ele uma lembrança da responsabilidade X-men, de quando podia ajudar uma garotinha a ser salva e de um reflexo dele mesmo e do que queriam que ele fosse, caminho do qual saiu e do qual sabe que pode a resgatar também. E o talento da menina Dafne Keen é primordial para esse desenvolvimento, pois minúscula, ela é um Wolverine no corpo de uma garotinha, faz jus a ele e em alguns momento até o supera, não só fisicamente (sério, as lutas dela são mais intensas que as dele), mas também emocionalmente. Ela não apenas aprende com ele, ela o desafia e consegue o desafiar.
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Igualmente digna de prêmios também é a performance de Hugh Jackman. Em todos esses anos ele construiu a assinatura de seu Logan, é possível a ver aqui, mas é como se dessa vez fosse possível ver o personagem de forma mais transparente. Aqui conhecemos o homem, vemos as marcas do que ele viveu e reconhecemos os sentimentos que o fazem quem é. Um homem que se recusou trilhar a obviedade de tudo que sofreu e fazer algo melhor, sempre pelos outros e não por ele mesmo.
O elenco de apoio do filme ainda conta com um Caliban (Stephen Merchan) essencial a trama e que contribui em muito para o arco de Logan e Xavier e um Donald Pierce (Boyd Holbrook) vilanescamente carismático. O filme conta com poucos personagens e com isso consegue trazer apenas figuras com função no roteiro, uma qualidade poucas vezes vista em filmes do gênero, quase sempre lotados.
Tecnicamente o filme também impressiona. Tão sujo e desgastado quanto a vida de seus personagens, nada é bonito, ou é de uma beleza feia. Os cenários não são grandiosos, são amargos, dão os contornos de um filme feito com menos dinheiro, mas muita identidade. Destaque também para as sequencias de ação extremamente bem coreografadas e viscerais, de uma violência que não é gratuita, mas necessária, vinda para carregar a consequência de ser a arma que o protagonista é.
Fazendo referencias sutis que o amarram a toda a trajetória do Wolverine e dos X-men até aqui e se permitindo a contar algo novo, “Logan” é como um vento que bate no rosto relembra  momentos bons, é aquele abraço de despedida carregado de angustia. “Logan” é inteiramente sobre os sentimentos. Um filme absurdamente emocional, sobre o peso da consequência, sobre vida, morte, conclusão. Ele não fecha a franquia em si, mas fecha claramente o trabalho iniciado no primeiro filme de 2000 como um terceiro ato da historia começada ali. E que terceiro ato decente! Bonito! Se esse realmente foi o ultimo filme do ator na pele do Wolverine, ele foi mais que uma despedida digna, foi uma comprovação de que ele não deve ser substituído.

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