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Review: Moonlight


A realidade do protagonista de Moonlight é bem especifica, é a realidade de uma pessoa negra criada na periferia cercado por drogas e violência urbana, dentro e fora de casa.  Não é uma realidade a qual muitos de nós conseguimos nos identificar, mas pela qual com certeza conseguimos ter empatia, o que já faz a experiência do filme bem dramática. Minha surpresa porém foi quando descobri que se tratava da historia de um homossexual, ao só porque  essa realidade se torna ainda mais difícil nesse contexto, mas porque ali, me vi.
Pude sentir o nó na garganta quando a mãe (Naomi Harris, em performance extrema) pergunta a Juan (Mahershala Ali, excelente) se ele vai ter coragem de contar ao garoto Chiron porque as outras crianças batem nele. Relembrei o desespero de ficar preso na escola porque um bando de meninos resolveram que queriam me “pegar na saída” por algo que eu não tinha assumido nem pra mim mesmo. E quando Chiron pega a cadeira não pude deixar de me perguntar quantas vezes eu quis fazer o mesmo, mas tive mais sorte, segurei mais firme.
O roteiro do filme é inteligentíssimo ao trabalhar em boa parte o ponto de vista de todas essas figuras a volta de Chiron, fazendo dele um observador da própria vida, afinal, ele não tinha ideia do que estava acontecendo, ele estava descobrindo quem era e em meio a um caos. E mesmo quando ele cresce, segue a consequência do dia em que disse “chega”, ainda vemos alguém procurando quem se libertar das mil jaulas que as condições, as limitações e os problemas o colocaram. Ele virou jaula de si. Jaula que precisava de um rosto familiar para abrir.
A estrutura do filme também é genial, pois mesmo que linear, tem uma construção curiosa onde a narrativa vai passando pelas mãos que norteiam Chiron até serem entregues a ele. Isso tudo é possível também pelas atuações dos atores que interpretam o protagonista nos três capítulos que compõem sua jornada. Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevone Jones vivem o protagonista em pontos muito distintos da vida, porém sustentam igualmente o olhar vazio de quem está tentando entender, os ombros caídos e a voz embargada de quem era proibido de falar por si.
Esse Moonlight é sim um filme sobre sexualidade, crescimento, sobrevivência, mas mais que isso é sobre a busca de uma pessoa por um abraço, por um carinho resgatado da primeira e ultima vez em que alguém o tocou de forma não violenta ou piedosa. E é lindo.

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