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Review: Atômica



O filme anterior do diretor David Leitch, De Volta ao Jogo, realizado em parceria com Chad Stahelski, chamou muito a atenção por pegar a tradicionalíssima formula dos filmes de ação sobre assassinos espiões e dar uma modernizada, ao mesmo tempo em que modernizava Keanu Reeves, no que foi considerado seu retorno. Apesar do ar fresco dado a tal formula, existia algo que a antiga e a nova visão mantinham: um protagonista masculino. Como sempre, um homem chutando milhões de bundas por aí. E é por essa “falha” no anterior que seu novo trabalho, Atômica, sai à frente.

Tão formulatico quanto o anterior, aqui talvez até mais por repetir a versão modernizada da formula, Atômica adiciona uma camada a mais de novidade por colocar uma mulher no papel de ação sempre dominado por homens em papel totalmente igualitário. Ela não bate e nem apanha menos ou mais que Reeves, ou Jason Staham, ou Steven Seagal, e a principal competência da proposta aqui é mostrar isso de forma crua e crível. Claramente o que se precisava era apenas uma atriz com fisicalidade suficiente para tanto, e essa é Charlize Theron.

Tal como sua atuação já estava gabaritada por seu Oscar e seu desempenho em ação já estava provado por Mad Max: Fury Road, Theron aqui reafirma que é uma força da natureza. Sua habilidade, seu esforço, sua exaustão e sua estratégia para ser capaz de derrubar homens com duas vezes o seu tamanho são resultado não só de atuação, mas também de uma expressão corporal absurda. Isso, somado a uma coreografia e uma filmagem impecáveis, entregam a critérios de sequências de luta um resultado praticamente perfeito.

Aqui entramos nos créditos ao diretor. Leitch já tinha mostrado no trabalho anterior (e aqui confirma) que sabe exatamente o que está fazendo quando se trata de filmar uma luta. Ele sabe quando filmar de perto, quando filmar de longe, quando aplicar cortes, quando montar  “plano sequência” e com isso entregou aqui em pelo menos duas cenas as melhores sequências de ação que eu já vi na vida. O trabalho de fotografia e trilha do filme também é lindo, abraçam um retrato estereotipado e punk da Guerra Fria que funciona muito bem no contexto geral.

É claro que ainda assim o filme tem seus problemas, e eles estão concentrados em roteiro e historia. A complexidade da historia com três a quatro plot twists talvez pudesse soar ousado, porém acaba soando demais para a proposta do filme, que poderia ter de aproveitado de um desenrolar mais simples. Além disso, a escolha por uma historia narrada e não que acontece em tempo real talvez não tenha sido a ideal, deixando o filme um pouco longo.


Nada disso porém estraga a experiência ou tira méritos do filme como um todo, que vem como mais uma quebra de barreira de gênero em um ano onde mais um seguimento hollywoodiano consegue mostrar o poder de protagonistas femininas. O elenco de apoio só serve para engrandecer o que facilmente é um novo ícone de ação em um filme mais que bem-vindo. Vale demais o ingresso e mal posso esperar para ver o que Leitch fará em Deadpool 2, seu próximo projeto.

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