Pular para o conteúdo principal

Review: Kingsman - O Círculo Dourado




Quando uma nova franquia consegue a proeza da autorreferência e, mais importante, faz com que o público capte essas referências sem explicações desnecessárias, então significa que ela está no caminho certo, e isso é perceptível em Kingsman: O Círculo Dourado. Na continuação do longa de 2015, que foi uma das maiores surpresas do cinema de ação nos últimos anos, o cineasta Matthew Vaughn manteve todos os elementos que fizeram do primeiro um sucesso de público e crítica, homenageando ainda a loucura introduzida pela série cinematográfica que, se depender desses dois primeiros episódios, tem um potencial enorme.


Mais do que manter as características já inerentes à marca Kingsman nos cinemas, O Círculo Dourado consegue também elevar o nível em diversos sentidos. O primeiro deles já é óbvio só de olhar para o pôster. Uma produção que reúne figuras como Colin Firth, Julianne Moore, Halle Barry, Jeff Bridges, Mark Strong e Elton John (numa participação maravilhosa, tornando-o inclusive dono de grande parte das melhores cenas) já dá motivos de sobra para que o filme não passe em branco. A presença de alguns desses nomes, no entanto, pode parecer um pouco desperdiçada em determinados momentos, mas no decorrer da trama percebemos que os planos para o futuro da franquia envolvem vários deles, e que esse segundo filme pode ter servido apenas como uma introdução para um ou outro personagem brilhar mais pra frente.


A vilã psicopata e carismática de Julianne Moore (numa atuação muito bem-humorada) é uma dessas que poderiam ter rendido mais, mas a atriz se mostra tão à vontade no papel, provavelmente o dinheiro mais fácil que ela já conseguiu em sua carreira, que não sobra muito espaço para críticas. O elenco todo, na verdade, parece se divertir bastante trabalhando e isso fica evidente no entrosamento deles em tela, uma química que funciona muito bem tanto entre os mais experientes quanto entre os jovens que protagonizam a história.


Talvez a missão mais difícil desse segundo longa seria superar as mirabolantes cenas de ação do primeiro, e a tarefa foi concluída com sucesso. Ainda que aqui não tenhamos um momento icônico como aquele da igreja (uma cena tão surreal e ridiculamente incrível que merece entrar para a história), a variedade de ambientes, os planos-sequência e as lutas coreografadas ficam ainda mais legais agora. O fato de que o filme não economiza no sangue também ajuda, mas não chega a ser uma violência gratuita justamente por estar totalmente atrelada ao humor, que também é ainda mais presente e, ouso dizer, muito melhor que no primeiro.


Apesar de todo o clima divertido e despretensioso, ainda sobra espaço para posicionamentos políticos sobre alguns assuntos como a legalização das drogas e a guerra travada contra os traficantes, além de uma sátira hilária do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fugindo do óbvio para cutucar as opiniões absurdas do republicano, com gestos e frases de efeito pontuais tragicômicos ao lembrarmos que vêm de uma figura real.


Kingsman: O Círculo Dourado serviu, acima de tudo, para consagrar o nome da franquia na história recente do cinema de ação, reforçando os elementos que se tornaram características dela. Qualquer outro longa por aí que conte com o combo atuações exageradas + cenas surreais de luta + violência casual + humor refinado já vai logo remeter às aventuras dos agentes Galahad. Basta que daqui pra frente o nível siga sendo mantido, e o público vai sempre sair do cinema já querendo a continuação. Até aqui, essa cartilha foi seguida com maestria. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Review: Os Vingadores - Guerra Infinita

Dez anos se passaram desde que a Marvel Entertainment se recuperou da terrível crise financeira que enfrentou nos anos 1990, e através dos lucros alcançados com a venda dos direitos de seus principais títulos para estúdios de cinema decidiu caminhar com as próprias pernas por esse mercado, lançando o Marvel Studios. Dezenove filmes e uma absorção pelo gigantesco conglomerado Disney depois, o estúdio estreante mudou as regras do jogo, trouxe um conceito mais próximo do desenvolvimento de quadrinhos para o cinema e tomou a liderança do gênero, o que culmina no evento que é Guerra Infinita. E que evento!
Sim, porque acreditávamos ter presenciado um filme evento com o primeiro Os Vingadores, até mesmo com o segundo, mas se tínhamos, o conceito acabou de subir de nível com esse terceiro “assemble”. O que assisti ontem não foi um filme, foi uma experiência cinematográfica, foi algo inédito em escala, em conceito, em proporções! A promessa de um gigantesco crossover de quadrinhos reproduzid…

Review: Pantera Negra

Antes de começar nossa conversa, gostaria de ressaltar que aqui discutirei apenas o filme enquanto produção. Existe uma forte e IMPORTANTÍSSIMA discussão cultural e social que é parte indispensável do longa, porém eu não faço parte dessa demografia, posso fazer uma ideia, mas não conheço essa importância, essa vivencia, então posteriormente pretendo convidar algum representante da comunidade negra para escrever sobre essa parte aqui.
Por hora, vamos discutir o filme, e que filme! Apesar de grande fã do Marvel Studios e defensor do reconhecimento de sua liderança no gênero de super-heróis, já venho a algum tempo criticando a falta de seriedade e o quê formulatico de seu universo, constantemente contendo suas produções em tom e não os permitindo “engrossar” a conversa. Pois finalmente o estúdio se permite ultrapassar esse limite com Pantera Negra.
Esse é sem duvidas um filme de super-heróis, porém ele é mais que isso. Aqui se fala sobre tradição, cultura, crença e especialmente se que…

Review: Mãe!

Se tratando de um filme tão diferente quanto Mãe!, não é estranho que esse vá ser um review diferente. Neste review em especial eu vou falar o que achei do filme e o que entendi dele, por essa razão já darei um aviso: se você não assistiu ao filme ainda, pare por aqui e volte apenas quando tiver assistido. Digo isso porque o filme é pura metáfora e simbologia, deixando passível a diversas interpretações e a melhor maneira de descobrir a sua é ir ao cinema sem influências.
Ainda aqui? Ok, vamos lá. Eu estranhei muito quando, ao fim da sessão, ouvi alguém dizer algumas filas acima de mim: “- Não entendi nada”. Vivemos em uma sociedade de grande maioria religiosa ou de pelo menos criação religiosa e onde a Bíblia Sagrada é o livro mais vendido do mundo, sendo assim, como é possível que as pessoas tenham dificuldade em entender uma analogia a ela quando veem? Pois pra mim essa foi a interpretação primaria de Mãe!, uma grande releitura da Bíblia, desde Gênesis até o Apocalipse, em uma ve…