Pular para o conteúdo principal

Review: Mãe!



Se tratando de um filme tão diferente quanto Mãe!, não é estranho que esse vá ser um review diferente. Neste review em especial eu vou falar o que achei do filme e o que entendi dele, por essa razão já darei um aviso: se você não assistiu ao filme ainda, pare por aqui e volte apenas quando tiver assistido. Digo isso porque o filme é pura metáfora e simbologia, deixando passível a diversas interpretações e a melhor maneira de descobrir a sua é ir ao cinema sem influências.

Ainda aqui? Ok, vamos lá. Eu estranhei muito quando, ao fim da sessão, ouvi alguém dizer algumas filas acima de mim: “- Não entendi nada”. Vivemos em uma sociedade de grande maioria religiosa ou de pelo menos criação religiosa e onde a Bíblia Sagrada é o livro mais vendido do mundo, sendo assim, como é possível que as pessoas tenham dificuldade em entender uma analogia a ela quando veem? Pois pra mim essa foi a interpretação primaria de Mãe!, uma grande releitura da Bíblia, desde Gênesis até o Apocalipse, em uma versão inclusive tão mais interessante e coesa ao mundo que vejo a minha volta que arrisco dizer que se fosse essa a versão oficial, eu talvez não tivesse me afastado de religiões.

Sobre como entendi a metáfora do filme. Nele encontramos a mãe (Natureza) e o poeta (Deus) sozinhos em sua casa (o mundo); ela dedicada a reconstruir a casa uma vez destruída e vazia para ele, enquanto ele claramente se sente sozinho e sofre com seu vácuo criativo, que o impede de escrever seu novo poema. É quando chega primeiro o Homem (Adão) e logo em seguida a Mulher (Eva), recebidos pelo poeta de braços abertos e sem consultar a Mãe, violando a paz daquele lar. Não demora até que venham também os filhos (Cain e Abel) em um caos que enche a casa, desordena e só tem fim quando o contrariar a Mãe inunda a casa (o dilúvio). Esses acontecimentos finalmente inspiram o poeta a gerar novas criações, em texto e no filho feito na mãe, porém seu poema (a palavra de Deus) atrai admiradores e seguidores, que entendem suas palavras cada um a sua maneira, dando vida a diferentes cultos, a supostos direitos de violação de seu lar. Eles entendem que tudo que ele deseja compartilhar com seus fieis lhes dá direito a destruir, desde sua casa até seu filho (Cristo).

A força de Mãe! começa na historia. Todos os pontos de vista dela são escritos de forma crua, talvez filosófica, mas bem coerente. A crítica a humanidade e seus viés sempre destrutivos e inconvenientes, como de uma eterna criança perante os pais (Deus e a Natureza) são escancarados no nosso pior. Pegue por exemplo a comentada cena da pia, onde somos avisados pela natureza uma, duas, três vezes do perigo e insistimos em fazer até que o pior aconteça. E não se engane achando que é apenas um filme que aponta o pior da humanidade, o próprio Deus é questionado! Até onde não é da sua falta de clareza ou interferência a responsabilidade também?
 
A outra metade da força do longa está nos personagens, na diversidade de personalidades apresentadas por eles e consistência das interpretações. Jennifer Lawrence compõe uma Mãe criativa, linda, sentimental e dedicada, a Ele e ao mundo que constrói, mas que quando contrariada pode ser uma força incontrolável. Javier Bardem traz um Deus compreensivo, consolador, de braços abertos, mas que também é egoísta e necessitado de atenção, capaz do perdão incondicional também porque não quer abrir mão de seus admiradores. Michelle Pfeiffer e Ed Harris apresentam um casal que a primeira vista se parece com aquele que os acolhe, porém com a falta de limites e a curiosidade de quem invade e não se importa em respeitar os limites de um lar que lhes acolhe.


O que Daren Aronofsky apresenta aqui é porque a sociedade é um projeto que dá errado e onde estão as parcelas de responsabilidade por isso. O filme começa pelo fim e volta ao começo para mostrar como nosso caminho é a destruição e que mesmo assim, Deus prefere recomeçar e apostar em sua criação mais uma vez. Tudo isso por nós e por ele mesmo, sendo a única vitima a natureza, que constrói, sofre e se revolta, mas continua o amando, amor que nos permite outra oportunidade. Mãe! narra a mais cheia de alegorias e metáforas de todas as historias de forma tão lúdica quanto a versão original, porém com mais crueldade. Talvez não a entender aqui diga muito sobre ela nunca ter sido entendida lá no chamado Livro Sagrado também. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que o Live-action de Mulan Não Será um Remake da Animação

Assim como parte do publico pela internet a fora, eu vinha incomodado com o fato do live-action de Mulan estar tomando uma forma bem diferente da animação clássica de 1998 lançada pela Disney. Afinal, desde Cinderella (2015), o estúdio vem conquistando o publico adulto através da nostalgia, com versão “em carne e osso” das historias com as quais crescemos, acrescentando no máximo uma camada a mais nas modernizadas versões com atores reais em cena. Foi esse incomodo com a mudança de estratégia que me fez ir pesquisar sobre, o que acabou me fazendo entender os motivos por trás dessa decisão e inclusive me converter, pois comercialmente é sim o caminho correto a se seguir.
O que diferencia Mulan de projetos como Cinderella, Mogli e A Bela e a Fera é uma questão bem objetiva: a China. E não, a Disney não está tomando decisões por causa da cultura ou das tradições chinesas, longe disso, o que está sendo levado em conta aqui é o que pode fazer o filme ter um retorno financeiro melhor, e ne…

Review: Os Vingadores - Guerra Infinita

Dez anos se passaram desde que a Marvel Entertainment se recuperou da terrível crise financeira que enfrentou nos anos 1990, e através dos lucros alcançados com a venda dos direitos de seus principais títulos para estúdios de cinema decidiu caminhar com as próprias pernas por esse mercado, lançando o Marvel Studios. Dezenove filmes e uma absorção pelo gigantesco conglomerado Disney depois, o estúdio estreante mudou as regras do jogo, trouxe um conceito mais próximo do desenvolvimento de quadrinhos para o cinema e tomou a liderança do gênero, o que culmina no evento que é Guerra Infinita. E que evento!
Sim, porque acreditávamos ter presenciado um filme evento com o primeiro Os Vingadores, até mesmo com o segundo, mas se tínhamos, o conceito acabou de subir de nível com esse terceiro “assemble”. O que assisti ontem não foi um filme, foi uma experiência cinematográfica, foi algo inédito em escala, em conceito, em proporções! A promessa de um gigantesco crossover de quadrinhos reproduzid…

Review: Venom

Desde seu renascimento em 2000 com o primeiro X-men, as adaptações de quadrinhos seguiram um longo percurso. Hoje é possível dividir essa era moderna dos super heróis em duas fases: Entre 2000 e 2008, onde o cinema estava brincando com gênero da maneira que sabia ou conseguia, e o pós 2008, onde Cavaleiro das Trevas e o surgimento do Marvel Studios com Homem de Ferro redefiniram o conceito e a forma de trabalhar esse conteúdo. Mais recentemente, títulos como Logan, Pantera Negra, Deadpool e Mulher-Maravilha abriram novos e mais refinados horizontes cinematográficos para o gênero. Eis que agora vem Venom proporcionar retrocesso.
Sim, pois essa é uma perfeita adaptação de quadrinhos de 2004 ou 2006. Desde o roteiro recheado a clichês e diálogos absurdamente expositivos a um vilão da profundidade de um pirex que só aparece para reforçar artificialmente como é mal, o filme parece se esforçar em repetir erros que eu achei que o gênero já tinha aprendido a não cometer. Inclusive, o banal …