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Review: Thor Ragnarok




Nessa onda crescente do gênero de super-heróis no cinema nas ultimas duas décadas, existiam dois que sofriam especialmente do mesmo problema: Wolverine e Thor.  Ambos tiveram um excelente casting, contribuem muito para os filmes de equipe quais participam (X-men e Vingadores, respectivamente), porém nunca conseguiram lançar filmes solos unanimemente bons. Curioso também como para ambos serviu a regra do “the third is the charm” e inclusive no mesmo ano, pois tal como Logan foi para o Wolverine, Ragnarok é onde o Deus do Trovão finalmente encontra sua identidade.

Curiosa também a contradição de caminhos, pois enquanto ao mutante faltavam maturidade e brutalidade, tanto física quanto dramática, o que faltava a Thor era se levar menos a sério. Pois o filme do talentoso diretor Taika Watiti (o terceiro diretor na franquia) o leva zero a sério, sendo justamente seu timing impecável para comédia o que dá vida nova ao Deus nórdico. Esse filme abraça o lado ridículo de toda a pompa de reinos mitológicos e hierarquias medievais, tratando tudo como piada desde a primeiríssima cena. Você sabe que não deve levar nada a sério desde a abertura do filme, o que talvez pudesse até ser prejudicial, se não fosse tão bem aplicado. Eu não encontrei uma única piada ou fala no filme que não funcione ou não venha no momento certo.

Essa mudança de abordagem permitiu o melhor uso de Chris Hemsworth no papel até hoje. Ele já era conhecido pela excelente veia cômica, que inclusive já tinha aloprado de forma excelente em As Caça-Fantasmas, e aqui junta o que já tinha construído do herói com o que sabe fazer de melhor. Ele se manteve fiel a persona, mas ainda assim a renovou e convenceu. Outro que retorna de forma diferente é Mark Ruffalo como Hulk, que aqui curiosamente passa a ser abordado de forma mais próxima as séries animadas, é divertido, porém não é necessário ao arco principal. Eu inclusive diria que sua mais memorável historia, o Planeta Hulk foi desperdiçado mesmo aqui, até porque o filme não se preocupa em explicar nem como ele chegou ali, nem como se tornou mais consciente e falante enquanto Hulk. Foi uma adição inteligente a critérios de marketing, rende boas cenas, mas não engrandece a historia propriamente.

Já os novos rostos adicionados ao Universo Cinematográfico Marvel sim, engrandecem o filme e a franquia no geral. Dizer que Cate Blanchett está muito boa em um papel pode parecer redundante, mas é um tipo de papel que ela nunca fez e além de estar belíssima, está muito a vontade, claramente se divertindo. Alias, Hela é o tipo de vilã que faltava a esse universo, uma vilã sagaz, completa e sem a menor culpa. O Grandmaster de Jeff Goldblum é basicamente ele sendo ele mesmo e oferecendo um humor tão rápido, tão esperto, tão delicioso, que a figura extremamente extravagante acaba não sobressaindo a personalidade implacável. Mas foi na Valkyrie de Tessa Tompson que me encontrei dividido, pois eu defendi muito a produção por diversificar o cast com sua personagem, a atriz mandou muito bem em um tipo de personagem feminina incomum, porém um easter egg que explica seu passado tirou a força do casting pra mim.

Visualmente o filme é indiscutivelmente incrível. A influência do trabalho de James Gunn em Guardiões da Galáxia sobre todo o Marvel Studios tem começado a aparecer, mas o filme também busca fortes referências nos quadrinhos da época de Jack Kirby, com cores gritantes, cenários carregados, um visual que combina muito com o humor do filme. Não é um filme de sequências de ação memoráveis, porém, com alguns momentos bastante legais, mas que não chegam a se tornar uma sequência inovadora.


E é por finalmente se tratar de um Thor com identidade forte e cara própria que eu espero que ele fuja a regra do estúdio de trilogias. Descobrimos aqui um mundo novo e muito interessante para essa franquia habitar e que tem bastante a oferecer, já oferecendo muito na primeira viagem alias. Vale muito o ingresso e espero de verdade que não seja nosso ultimo encontro solo com o Deus do Trovão. 

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