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Review: A Forma da Água



Em um recente round table de diretores Del Toro disse abertamente que esse é o melhor filme que ele fez. É muito raro e até mesmo perigoso um diretor fazer esse tipo de afirmação em relação a sua obra, ao seu portfólio, tanto que por mais empolgado que eu estivesse com o longa, eu levantei uma sobrancelha quando ele disso. Após assistir ao filme eu venho através deste texto concordar.

Existe uma mistura inexplicável de beleza, doçura, elegância e esquisitice na composição dessa fabula que partem de lugares muito diferentes, como da narrativa, da composição, das atuações, da musica, e se juntam de forma impecável pra construir algo muito bonito e único. Interessante nesse aspecto também que a primeira coisa reparei no filme foi como ele, pelo menos no meu entendimento, estrategicamente colocou uma masturbação logo de cara no filme, deixando bem claro que apesar de ser uma linda fabula, essa era uma fabula adulta.

Outro ponto de suma importância pra esse resultado lindo é a construção de mundo que Del Toro e  Dan Laustsen (diretor de fotografia) realizaram. É o nosso mundo em uma época bem especifica, mas como em uma boa fabula, tem algo de fantasioso nele, como se fosse uma realidade espelhada. É o famoso “real” Hollywoodiano clássico, que nos entrega um mundo que mesmo reconhecível e inclusive cheio de referencias visuais e musicais ao seu período, é feito pra embarcar. Seguindo a deixa, isso nos leva também a criatura, a tal forma, que pra mim é a mais genial entregada por Del Toro (colocando para jogo inclusive Labirinto do Fauno). A criatura consegue pesar igualmente o lado animal com o humanoide e o resultado é algo primordial ao filme: ele é sexy. A atração da personagem por ele faz todo sentido graças a isso.

Eu pensei em destacar performances, porém está todo mundo entregando tanto em seus papeis, sejam os protagonistas ou os coadjuvantes, todos emprestam um carisma tão único e tão especial ao seus personagens, que acabam funcionando como uma coisa única que carrega o longa com uma emoção muito especial. E estou incluindo o vilão nisso, pois quem é bom é tocantemente bom, e quem é ruim é grotescamente ruim. É o resultado de um elenco extremamente talentoso somado a uma excelente direção.


O que vi aqui não foi só o trabalho favorito do Del Toro, foi o meu trabalho favorito dele também. Inclusive nessa sessão eu vivi uma sensação qual a ultima vez que senti nesse nível foi em 2016 com A Chegada, a de ter visto um dos meus filmes favoritos da vida pela primeira vez. Vale o ingresso e valem todas as treze indicações ao Oscar.

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