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Review: Pantera Negra



Antes de começar nossa conversa, gostaria de ressaltar que aqui discutirei apenas o filme enquanto produção. Existe uma forte e IMPORTANTÍSSIMA discussão cultural e social que é parte indispensável do longa, porém eu não faço parte dessa demografia, posso fazer uma ideia, mas não conheço essa importância, essa vivencia, então posteriormente pretendo convidar algum representante da comunidade negra para escrever sobre essa parte aqui.

Por hora, vamos discutir o filme, e que filme! Apesar de grande fã do Marvel Studios e defensor do reconhecimento de sua liderança no gênero de super-heróis, já venho a algum tempo criticando a falta de seriedade e o quê formulatico de seu universo, constantemente contendo suas produções em tom e não os permitindo “engrossar” a conversa. Pois finalmente o estúdio se permite ultrapassar esse limite com Pantera Negra.

Esse é sem duvidas um filme de super-heróis, porém ele é mais que isso. Aqui se fala sobre tradição, cultura, crença e especialmente se questiona tudo isso, revelando e discutindo pontos de vista a respeito e os limites de cada um desses pontos. Esses debates são encontrados em todos os personagens do filme, em suas motivações pessoais e suas reações aos eventos da historia. Um trabalho excelente do roteiro, que pode ser percebido até mesmo em um curto dialogo entre as personagens Nakia (Lupita N’yongo) e Okoye (Danai Guirira) sobre como reagiriam ao grande twist da trama. E ambas tem razão em suas próprias e bem argumentadas convicções. É esse o nível de debate presente aqui e que dificilmente um filme do gênero (ou um blockbuster desse tamanho) apresenta.

Convicções e discussões inclusive são o que fazem desse o filme com a melhor construção de protagonista e em especial o melhor vilão do Universo Cinematográfico Marvel. Como costumam dizer, um herói é tão bom quanto seu vilão, e o Killmonger de Michael B Jordan traz não só um argumento, mas uma fúria embasada e justificada ao nível de vilões como Magneto, ao ponto de nos fazer questionar onde exatamente ele perde sua razão. Isso é resultado de um texto muito bom e uma atuação muito apaixonada.

Esse texto e essa direção tão preocupados e explorar pontos de vista sobre o universo que apresenta faz de Pantera Negra o filme com o melhor elenco de apoio que o Marvel Studios apresentou até hoje. É impossível sair do filme sem se apaixonar pela força das Dora Milaje e sua líder Okoye(Guiria), por Nakia (N’yongo), por M’Baku (Winston Duke) e sua tribo, pela princesa e cientista real Shuri (Letitia Wright), pois todo mundo tem função não só no desenvolvimento do herói, mas da historia desse país fictício e tão especial que é o centro da trama. Preciso destacar também a performance de Andy Serkis, claramente se divertindo no papel do insano Garra Sônica.

E apesar de não ser especialmente impressionante nas cenas de ação (o que também não era o foco da produção), esteticamente o filme é impressionante. Os figurinos são uma coisa que eu nunca vi no cinema com suas cores e estampas, e o “world build” de Wakanda é de uma imponência incrível. Já vimos muitos filmes com tecnologia avançada, mas esse afro-future misturando tradicional e futurista é muito novo e explorado de forma muito criativa.


Com essa pegada política e séria, mais preocupada em discutir assuntos que falam com a sociedade historicamente e nos dias de hoje, minha sensação foi de que o Marvel Studios fez aqui o seu Batman Begins, um filme que leva o gênero um passo a diante. Além disso, esse é um filme muito criativo no trabalho do lado fantasioso que o gênero exige, se mantendo também um filme de super-heróis, mas uma contribuição nova ao segmento.  E é justamente por me parecer um Batman Begins que estou ansioso por sua sequência, que tem todo potencial para ser um novo Cavaleiro das Trevas.

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