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Review: Com Amor, Simon




“You need to exhale”. De tudo que falou diretamente comigo em “Com Amor, Simon”, essa frase da mãe do protagonista, interpretada por Jennifer Garner, foi a que me cortou mais fundo. Foi exatamente a sensação que tive quando me assumi gay para minha mãe, a de quem respirava pela primeira vez depois de muito tempo prendendo o ar. Alias esse filme pra mim foi todo sobre isso, sobre como a adolescência homossexual foi, poderia ter sido ou merecia ter sido, em um retrato muito doce e muito honesto.

Digo honesto, pois aqui não temos um protagonista que faz tudo certo ou pensa no bem maior em tempo integral, mas que acaba por tomar decisões ruins a fim de se proteger também, e não tem nada mais relacionável que isso. Pergunte a qualquer gay e eu te garanto sem medo que a grande maioria dirá que a adolescência foi a pior fase da vida, foi onde foi mais atacado e onde se sentiu menos protegido, logo, onde mais teve que se proteger. E quantas decisões erradas nascem dessa necessidade de se defender da retaliação por ser quem é? Eu posso contar milhares. Honesto também pois apresenta, a partir do momento em que Simon começa a ser percebido enquanto gay, a necessidade de falar sobre a isso partindo mais dos outros que dele. Pobres de nós que não conseguíamos passar por heterossexuais, pois todo mundo tinha uma opinião sobre, uma piada sobre, um questionamento sobre, e apenas um único questionamento não vinha: “Você quer falar sobre isso?”.

Porém também digo doce, pois o filme mostra muito do como as coisas deviam ser pra quem está tentando apenas viver a sua maneira. O apoio e a compreensão familiar que nem sempre, a defesa de professores que na maioria das vezes parecem não ver (ou não se interessar) pelo que está acontecendo dentro daquela escola, a rede de amigos que nem sempre existe ou que como foi o meu caso, não se encontra a tempo. Foi  como ver a diferença que faria um circulo social com um pouco mais de empatia, até mesmo a diferença que faria ter tido um filme desses para se relacionar na época. Arriscaria-me a dizer até mais, foi ver diferença que faria termos a vida que merecíamos ter, primeiro direito tirado ou não oferecido quando você é diferente. Direito também de ter uma historinha de amor da adolescência para recordar, o que poucos de nós conseguiram devido às preocupações em se manter trancado dentro de si, própria e de outros iguais. 

O mais importante porém, é que Com Amor, Simon passa por toda a experiência de um adolescente gay para concluir que não existe nada melhor do que ser quem é, independente do preço. Conquistar o direito de respirar com tranquilidade em seus lugares mais cotidianos é a primeira sensação de dignidade possível. E tomara que as gerações que tem uma historia de amor assim para assistir, o que não tivemos na minha época, também tenha todas essas outras oportunidade. Por hora, terem esse filme para se relacionarem com já foi um passo que me alegrou muito ver acontecer, pois ao contrário de filmes mais complexos como Me Chame Pelo Seu Nome, esse aqui é só sobre a vida. Ou sobre um potencial mais viável dela. 

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