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Review: Jogador Nº 1




De todas as perguntas difíceis feitas a um apaixonado por cinema, apenas uma eu consigo responder sem a menor dificuldade: “Qual o seu diretor favorito?”. Sendo um filho dos anos 1990 eu cresci assistindo aos filmes da fase mais marcante da carreira de Steven Spielberg, que construiu não só seu nome, mas todo o conceito de blockbuster de Hollywood como se conhece hoje, e com isso construiu também minha paixão pelo cinema. Por essa razão, vê-lo voltar ao gênero que o consagrou e através de um material que homenageia a cultura pop, em muito por ele alimentada, é uma aposta que tinha tudo para dar certo. E deu!

Em Jogador Nº1 não somos apresentados apenas a uma homenagem a cultura pop, mas também transportados para o tipo de filme que a constituiu originalmente, qual não vemos há um bom tempo. Os filmes de aventura do fim dos anos 1970 até meados dos anos 1990 tinham uma aura muito particular, traziam uma empolgação na jornada que te prendia ao sofá, e é esse tipo de sensação que é resgatada aqui. Spielberg praticamente inventou esse modelo de narrativa e nesse novo filme vemos que ele ainda sabe o fazer como ninguém, inclusive segurando tons e ações que talvez fariam sentido no cinema de hoje, mas não faziam no da época e não fazem em um filme dele. E aí está o diferencial para quem é fã de cinema e do gênero, porque quando um vilão é menos vilanesco que esperado ou não toma uma ação que se previa, faz sentido no contexto de quem conhece esse modelo de aventura.

As referências são grande parte da atração, porém é muito bacana ver como elas não são gratuitas. Mesmo se tratando de milhares (certamente eu vou adquirir o home vídeo apenas para ficar procurando personagens e imagens pelo filme), elas funcionam na narrativa, a começar pela proposta do jogo em questão, que é poder ser quem você quiser ser. Outras mais marcantes, como Delorean, ou o Gigante de Ferro, contribuem para a historia, são inseridas nela e fazem parte de seu desenvolvimento, o que me deixa seguro em afirmar que nada aqui foi adicionado apenas como adorno. E falando ainda de referências e homenagens, a viagem até um clássico do terror que acontece no meio do filme é um momento que traduz puramente a magia do cinema e já valeria pelo filme todo.

Esteticamente o filme é impecável, seja na construção do mundo virtual ou do real, o que temos aqui é criatividade sci-fi de alto nível. É muito interessante inclusive como as “fases” do desafio pelo qual acompanhamos os protagonistas aproveitam tão bem de conceitos de games, o que vai encher os olhos de amantes de videogames. Os momentos do jogo acontecem em cenários de estilos de game que combinam com o desafio apresentado, existem os upgrades, existem os puzzles, existem os cinematics para conhecer a historia da trama jogada. Eu não considero essa uma adaptação de videogames porque ele se baseia em uma obra literária, mas talvez possamos dizer que essa é a melhor adaptação da experiência de jogo já feita.

E tão importante quanto a construção do mundo e da narrativa para uma aventura, é a construção dos personagens. Aqui o que temos é um time que funciona muito bem (definitivamente não é um single player), que inclusive tem a preocupação de ser bem diverso e igualitário, cada membro com sua função, habilidade e importância para o desenrolar da historia, mesmo que tenhamos um protagonista bem estabelecido. Muito bacana também é como todos os atores conseguem ser carismáticos seja na versão real ou digital, todos eles excelentes não só na atuação tradicional, como também em dublagem. Alias, a critério de dublagem, a menina Olivia Cooke foi a maior surpresa, me deixando bem impressionado com a voz firme e diferente que ela tem ou emprega em seu avatar.

Resgatando tudo aquilo que se entende por Hollywood e cultura pop, Jogador Nº1 é um filme para apaixonados por essas experiências. Em tempos de nostalgia em alta, ele apresenta o máximo que é possível experimentar e resgata a simplicidade e ingenuidade que permeava o entretenimento quando blockbusters eram grandiosos de outras maneiras. Vale o ingresso pra quem viveu essas experiências e pra quem não viveu. Que bom ver esse cinema de volta.  

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