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Review: Os Vingadores - Guerra Infinita




Dez anos se passaram desde que a Marvel Entertainment se recuperou da terrível crise financeira que enfrentou nos anos 1990, e através dos lucros alcançados com a venda dos direitos de seus principais títulos para estúdios de cinema decidiu caminhar com as próprias pernas por esse mercado, lançando o Marvel Studios. Dezenove filmes e uma absorção pelo gigantesco conglomerado Disney depois, o estúdio estreante mudou as regras do jogo, trouxe um conceito mais próximo do desenvolvimento de quadrinhos para o cinema e tomou a liderança do gênero, o que culmina no evento que é Guerra Infinita. E que evento!

Sim, porque acreditávamos ter presenciado um filme evento com o primeiro Os Vingadores, até mesmo com o segundo, mas se tínhamos, o conceito acabou de subir de nível com esse terceiro “assemble”. O que assisti ontem não foi um filme, foi uma experiência cinematográfica, foi algo inédito em escala, em conceito, em proporções! A promessa de um gigantesco crossover de quadrinhos reproduzido na tela do cinema foi cumprida com muita competência e tomando decisões que transformam, mesmo que momentaneamente, o próprio Marvel Studios. Eu sempre fiz parte da parcela nerd mais cética quanto ao Marvel Cinematic Universe (MCU), mas minhas ressalvas sobre a coragem deles para ousar e serem mais ambiciosos estão suspensas até segunda ordem. Digo até segunda ordem pois fica bem claro que muitas dessas decisões serão desfeitas no próximo filme, mas isso é um problema para quando ele sair, por hora foi um senhor passo.

Ambição é a palavra chave para esse terceiro Os Vingadores. O estúdio ousou unir todas as franquias que lançou em um lugar só, ousou jogar com personagens amados individualmente e ousou ao entregar uma historia com acontecimentos e conclusões que não apareceram em nenhuma teoria de fã, em nenhuma expectativa, e só por isso o filme já merece muito crédito. E mesmo com tantos personagem para unir, nada no filme soa preguiçoso. Nada de batalhas em aeroporto para facilitar com um fundo branco, o que temos aqui são cenários carregadíssimos de informações, de cores, de funções, proporcionando palcos incríveis para performances na mesma altura (e que dispensam elogios, todo mundo aqui já pegou o papel pra si filmes antes).

Mas um acerto de personagem no filme merece destaque e parágrafo próprio: Thanos. O estúdio investiu pesado para que ele não fosse mais um monstro digital vazio com um trabalho muito bonito no design do personagem, que ganhou vida e complexidade com a atuação sentimental de Josh Brolin e o roteiro que lhe entregaram. Fazer o filme sobre Thanos passando pelos heróis com seu background, suas motivações e objetivos foi a melhor decisão. Já conhecemos e amamos os heróis, foi hora de conhecer e amar o vilão.

Não é como se o filme não tivesse seus defeitos também. A estratégia de dividir o gigantesco elenco em grupos faz sentido, porém nem o imbatível MCU conseguiu administrar isso sem que um grupo destoasse do outro, sem que um se sobressaísse ao outro. O humor do qual venho reclamando cada vez mais ao longo desses dezenove filmes me incomodou menos aqui, mas ainda assim por pelo menos dois momentos ultrapassou a barreira do desnecessário. Infelizmente o impacto emocional da ambição do filme acaba prejudicado por se tratar da franquia que se trata, com datas para a próxima aventura dos heróis em conjunto e em carreira solo, com elenco confirmado, o que deixa fácil perceber o que certamente não vai se sustentar. Mas nada disso é capaz de estragar uma aventura tão épica e tão única.

Com Guerra Infinita o Marvel Studios se desafia, se supera, avança mesmo que ainda preso a sua própria construção e entrega um tipo inédito de blockbuster, um tipo singular de experiência no cinema. Esse filme é eficaz em cravar a bandeira do que o MCU construiu até aqui e em deixar aquela sensação de que ele ainda tem muito a oferecer, além do conforto de ver, mesmo com ressalvas, que ele é capaz de se reinventar. Here for more tem years!

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