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Review: Coringa




Apesar de ter ganhado o renomado Festival de Cinema de Veneza, Coringa detém neste momento uma média de 69% por parte da crítica no Rotten Tomatoes. Algumas semanas antes de seu lançamento, uma polêmica surgiu baseada no receio do filme ser “irresponsável”, incentivar a violência ou o movimento Incel. A conclusão que cheguei após assistir ao filme é que a parcela da sociedade com essas reações não estava com medo do filme, ela estava ultrajada. Nada incomoda mais que o espelho. E é isso que Coringa coloca a nossa frente, um espelho do que uma sociedade decadente é capaz de fazer com seus cidadãos mais frágeis, uma sociedade que podemos reconhecer como quem vê o próprio reflexo.

Estamos acostumados a ir ao cinema para acompanhar a jornada do herói, clássica, que mostra os caminhos, os encontros e as oportunidades que elevam um ser humano ao status quo admirável, ao seu melhor. O que Todd Phillips fez aqui foi pela primeira (ou ao menos rara) vez apresentar a perfeita jornada do vilão, com todos os obstáculos, limitações e faltas de oportunidades que podem levar alguém mais propenso ao seu pior. A sacada aqui é que essa jornada acontece com os dois pés na realidade, em lugar comum, em situações reconhecíveis, que angustiam por mostrar que a tal jornada do vilão pode estar acontecendo neste exato momento em Nova Iorque ou São Paulo tal como aconteceu em Gotham.

A intenção de fazer a historia tão fundamentada na nossa sociedade já começa na escolha de Nova Iorque, a cidade mais reconhecível do mundo, para ser o cenário de sua Gotham City. Reconhece-la te liga a ela, faz dela parte do nosso mundo, e esse é o primeiro elo que o filme inteligentemente faz com quem o assiste. Essa Gotham alias é o retrato de uma sociedade em ruínas, onde o 1% em sua bolha milionária destoa da realidade do 99% que está a cada dia mais a deriva e a cada dia com menos expectativa. Em determinado momento do filme Thomas Wayne faz uma declaração na TV que poderia ter sido feita por qualquer figura do cenário político atual que tenha o perfil de conhecer zero da vivência e sobrevivência da população pobre. Quando uma servidora publica dispensa um paciente em tratamento psicológico pois os fundos do serviço social foram cortados, nos reconhecemos essa situação.

E é aí que o Arthur Fleck de Joaquin Phoenix (mais brilhante que nunca, como se isso fosse possível) entra, Nas mazelas do que vive os 99%, com uma vida traçada desde a infância por acontecimentos que a cada vez que se revelam incomodam, mas não causam estranhamento, pois não fogem das noticias lidas com ultraje em sites de noticias diariamente. Arthur recebe da cidade uma variação entre o mau trato, a violência e a indiferença, e o filme mostra a pessoa que isso constrói. Em determinado momento, ao ser questionado sobre a morte de jovens executivos, Arthur diz: “se fosse o meu corpo estendido no chão vocês apenas passariam por cima”, seguido de outro momento em que diz que quando matou foi a primeira vez em que foi visto. O filme faz questão de não tornar suas ações justificáveis por sua realidade, mas ele não deixa de levantar questionamentos válidos sobre elas, outro brilhantismo do roteiro.

Não bastasse a excelência na escrita e na atuação, o filme ainda por cima é lindo. Extremamente bem gravado, bem editado e com uma música fortíssima, ele homenageia filmes da década de 1970/1980 entregando um perfeito filme daquela época, em um trabalho no nível dos Scorsese quais se baseia.

O que Coringa causa ao fim da sessão é uma surra de realidade, daquelas que te fazem voltar para casa baqueado e reflexivo, em grande parte com o caminho para o qual podemos estar seguindo enquanto sociedade. Toda vez que alguém levanta o “e se” dos 99% se rebelarem contra o 1% a reação midiática é de repulsa mesmo, o próprio filme se antecipa mesmo, mas essa reação só faz dele mais necessário e imperdível.

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