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Review: Bacurau



Eu vinha me perguntando os motivos quais, apesar de todo hype, não existirem conversas sobre Bacurau ser o nosso representante no Oscar 2020. Assistindo ao filme eu entendi as razões, da mesma forma como entendi a razão de todo o hype e entendi também que os trailers esconderam praticamente tudo sobre ele. O filme não é sobre o que eu imaginava, não é material para a academia, mas nossa, como ele é interessante.

O que mais me impressionou no filme foi a organização social da tal cidade de Bacurau. Minúscula, em situação bastante precária, mas sobrevivendo, a cidade tem na união da população sua força, mostrada logo no inicio do filme quando a cidade inteira é avisada da chegada do prefeito e consegue ignora-lo prontamente. Essa construção é essencial para quando, no terceiro ato do filme, a cidade vença seus antagonistas de forma orquestrada, tudo faça sentido.

A questão social é discutida no filme em várias vertentes, todas elas fazendo criticas sérias e sóbrias ao país e ao mundo, tudo a partir dessa minúscula cidade sertaneja. Existem os gringos, que vem ao Brasil em busca de seus prazeres e não considera quem encontra aqui como gente (não vou dizer mais a respeito pois descobrir esse plot assistindo é uma experiência fantástica); existem os brasileiros brancos do sul e do sudeste que se consideram superiores ao nordestino e ao pobre, apenas para serem lembrados pelos gringos que lá fora não são considerados brancos, mas sim latinos; e existe o povo simples porém sagaz, sempre mais atento e forte do que lhe julgam ser.

É incrível também como Bacurau consegue ser um thriller completo e competente. O filme tem um clima tenso e se desenvolve de maneira intrigante, e mesmo que o "mistério" não dure muito tempo, o desenrolar e a conclusão da historia são de uma expectativa imensa. Ele funciona como filme social, mas não deixa de ser uma ficção, sabe que é e cumpre todo esse requisito.

Todo o hype em torno de Bacurau, no fim, gira em torno dele ser um dos raros momentos em que o cinema nacional decide abraçar o cinema de gênero, porém adaptado a nossa cultura, a nossa realidade. Ele talvez seja tenso, violento e sexy demais para as grandes premiações, mas proporciona uma ida ao cinema que não deixa devendo em nada. 

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