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Review: Star Wars – A Ascensão Skywalker




Nos últimos anos tem se intensificado o debate sobre até onde fãs tem propriedade sobre franquias, uma conversa que passou a receber atenção devido ao barulho que as fan-bases de grandes títulos tem conseguido fazer através de redes sociais como o Twitter. Eu sempre estive do lado que é contra dar essa propriedade. Venho defendendo que o papel do publico é de expectador, é de reagir ao que o criativo faz e decidir se gostou ou não, mas o trabalho de fazer é de quem está qualificado a tanto e dedicado a contar uma historia, não a atender vontades. Pois esse “A Ascensão Skywalker” para mim veio provar que eu estava do lado certo da força.

Não me entendam mal, é de suma importância para um mercado como Hollywood saber se existe interesse do público no projeto milionário qual pretendem dar greenlight. Porém uma coisa é procurar saber se existe interesse da sua audiência em ver uma origem de Han Solo com um novo ator assumindo o papel, outra é tomar decisões narrativas de uma história com base no que fóruns vêm dizendo que preferiam ou não. A sensação que tive assistindo a esse Episódio IX da saga é de que foi feito a partir de um roteiro escrito por pelo menos dez fãs, a vinte mãos, cada um colocando o que mais gosta nos antigos filmes da franquia e gostariam de ver de novo. Não existe jornada emocional, não existe arco narrativo complexo, existe apenas um monte de fan-service amarrados por uma historia simples e repetitiva em relação ao que a franquia já fez com uma clara preocupação maior em agradar do que em contar uma historia.

Além de estar mais preocupado em agradar aos fãs que em contar uma história, o filme também está mais preocupado em desfazer as decisões do filme anterior que esses mesmos fãs não gostaram em prol de “restaurar a paz” com a fan-base. E eu fiquei especialmente surpreso como JJ Abrams, que está entre os diretores mais relevantes dos tempos atuais, fez tudo isso sem a menor cerimônia, sem considerar que algumas coisas exigiriam uma cara de pau enorme para fazer retcon e simplesmente mudar de um filme para o outro. Fora o retcon realizado no grande lore da franquia, o que seria super aceitável em uma fanfic, mas jamais em um filme. Me surpreende ainda mais que ele tenha mantido uma cena final que é basicamente a mesma da conclusão de outra franquia também da Disney que foi vista esse ano!


Por se tratar de um filme feito para marcar caixinhas com fãs, toda a grandiosidade de um Star Wars segue lá, com a icônica trilha de John Williams, as guerras espaciais, as perseguições, as lutas com sabre de luz. Mas talvez até por estar se esforçando tanto em se fazer um Star Wars clássico, essas sequências me soaram sem emoção. A única sequência realmente interessante foi a batalha sobre um mar tempestuoso, única que tenta trazer algum momento inédito a esse filme que não vimos anteriormente. A falta de impacto emocional do filme é tanta e as decisões de plot são tão previsíveis que, salvo por essa cena, o restante apenas acontece.

É lamentável ver a saga Star Wars se concluir dedicada a cumprir agenda, especialmente depois de um Episódio Oito que, independente de ter divido opiniões, fez algo novo com a franquia. E no mesmo ano em que Disney entrega o grandioso final da saga Vingadores, ela encerra Star Wars com a única satisfação de ao menos a historia ter se concluído. Fica a expectativa de que a próxima fase do universo criado por George Lucas venha de mentes criativas que façam cinema e não que escrevam no Reddit.

Comentários

  1. Quem estudou budismo e cultura clássica não viu um filme tão bobo assim. Mostra falta de patamar cultural da crítica. Além disso, elogiar aqueles filmes idênticos da Marvel mostra estreiteza de visão. Hoje só filmes que não exigem nada do público e da crítica fazem sucesso.

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