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Review: Toy Story 4




A franquia Toy Story é talvez a franquia animada moderna mais importante do cinema. Eu arrisco dizer que o Toy Story original foi para o cinema moderno o que Branca de Neve foi para o cinema clássico. Ambos foram responsáveis por reinventar o modelo de animação no cinema, ambos lançaram grandes estúdios de animação, ambos fizeram historia. Mas talvez Toy Story tenha feito um pouco mais, afinal, que outra franquia animada fez a proeza de estar entre as melhores trilogias já feitas por Hollywood? As duas sequências do original só fizeram aumentar sua barra de qualidade e a conclusão do terceiro capitulo foi tão completa quanto dolorosa. Meu medo com esse quarto filme era justamente que essa ultima grande proeza que a Pixar conseguiu com a historia dos brinquedos se quebrasse com uma extensão desnecessária. Por sorte não foi o caso.

Raspando o fundo do tacho da saga, esse novo filme encontra um propósito a critérios de historia, de desenvolvimento de personagens e de mensagem. Através de uma pergunta perdida na franquia com “O que aconteceu com Betty, a namorada do Woody?” e uma nova analogia sobre o que acontece quando um brinquedo simplesmente se torna obsoleto, a Pixar consegue não só justificar o filme como acrescentar algo relevante ao cânone criado até aqui. Além disso, é muito corajosa a decisão de reinventar seu principal personagem, Woody, tirando dele seu principal propósito até hoje e do qual ele era tão dependente: servir a uma criança.

Esse novo enredo é trabalhado de forma muito competente, especialmente por não ter medo de levar Woody a limites. Esses limites explicam o quão inconsequente ou cega sempre foi sua devoção a sua criança, e o quanto seu senso de coletividade, que antes o garantia uma liderança que não tem mais, se perdeu quando deixou de ser o “brinquedo favorito”. E nesse ponto, Betty vem como um perfeito oposto a ele, mas através de um rosto conhecido, um rosto que por um instante quase o fez desistir dessa sua devoção uma vez. Mas essa não é a única função dela a historia, ela vem também para desconstruir a ideia negativa que até hoje era dada ao brinquedo perdido. O que é importantíssimo quando se pretende apresentar essa possibilidade ao personagem mais amado da saga.

A fim de contar essa historia, alguns sacrifícios precisaram ser feitos. Outros queridos personagens da franquia acabaram sendo deixados mais de lado, como Buzz que acaba guiado por uma piada que ao menos não se torna repetitiva, ou Jessy que tem pouquíssimo tempo de tela. No caso dela existe uma alegoria interessante de, com o tempo, a criança ser uma menina levou a uma preferência pela cowgirl, com a qual se identifica mais, porém isso não é explorado. Em compensação, os novos personagens apresentados são excelentes. O Coelhinho e o Patinho tem as melhores piadas do filme, Isa Risadinha é encantadora e Gabby Gabby é uma excelente vilã, não por sua vilania, mas por trazer um objetivo qual Woody melhor que ninguém pode entender. Apenas o Duke Caboom não conversou muito comigo, mas não deixa de ser um personagem divertido.

A qualidade de animação dispensa comentários, pois a Pixar vem se inovando ferozmente a cada novo filme, mas eu fiquei realmente impressionado com alguns cenários nesse longa, que tinham detalhes de textura e poeira que os faziam parecer live-action. 

Para sorte da Disney/Pixar, se esse Toy Story 4 não eleva a já altíssima barra da franquia, ele ao menos a mantém. Não é um filme tão emotivo quanto o capitulo anterior, mas arisco dizer que é uma melhor conclusão que ele. Aqui temos um filme que não deixa nada pendente, que não deixa perguntas não respondidas e dá um final mais complexo ao protagonista. Fui ao cinema com medo de encontrar um capitulo desnecessário e ele acabou valendo muito a pena.

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